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Estudo revela que o cérebro passa por 5 fases distintas.

Bebé, criança, jovem, adulto e idoso sentados em fila, com cérebros iluminados a simbolizar diferentes idades.

O cérebro humano não é uma máquina rigidamente programada, mas sim um órgão maleável que se vai remodelando de forma contínua.

Neurocientistas da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, e da Universidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos, identificaram agora quatro grandes pontos de viragem na configuração das ligações cerebrais entre o nascimento e a morte.

Tal como os capítulos das nossas vidas, cada uma destas 'épocas' neurológicas assinala uma nova fase de desenvolvimento ou de declínio.

"Ao olhar para trás, muitos de nós sentimos que as nossas vidas foram marcadas por diferentes fases", afirma o autor sénior e neuroinformático Duncan Astle, de Cambridge.

"Acontece que o cérebro também atravessa essas eras."

De acordo com ressonâncias magnéticas cerebrais de 3.802 pessoas neurotípicas, desde a infância até aos 90 anos, a arquitetura do cérebro humano sofre mudanças bem definidas em quatro idades.

Essas idades situam-se por volta dos 9, 32, 66 e 83 anos, e delimitam cinco épocas: infância, adolescência, idade adulta, envelhecimento precoce e envelhecimento tardio.

"Sabemos que a rede de ligações do cérebro é crucial para o nosso desenvolvimento, mas ainda nos faltava uma perspetiva global sobre como ela muda ao longo da vida e porquê", diz a autora principal e neurocientista Alexa Mousley, de Cambridge.

"Este estudo é o primeiro a identificar grandes fases da organização cerebral ao longo de toda a vida humana."

O cérebro de um recém-nascido é muito diferente daquele que chega à velhice e, embora exista bastante investigação sobre as fases iniciais da vida, é menos claro como o cérebro se transforma na meia-idade e daí em diante.

Para compreender melhor a maturação do cérebro humano, Mousley e os seus colegas analisaram a conectividade cerebral ao longo de nove décadas de vida.

Também avaliaram vários outros fatores, como a eficiência global, que reflete a eficácia com que diferentes redes cerebrais comunicam entre si, e a modularidade, que mede até que ponto essas redes estão separadas ou especializadas umas em relação às outras.

No final, o estudo revelou cinco grandes épocas da vida.

A primeira vai do nascimento até aos 9 anos e começa com uma rápida expansão da matéria cinzenta - que contém sobretudo corpos celulares dos neurónios - e da matéria branca, que inclui mais axónios que ligam os neurónios entre si.

No entanto, à medida que a puberdade se aproxima, este 'arbusto' excessivo de ligações começa a consolidar-se, com a poda de conexões neurais para se tornar mais eficiente.

A segunda época do desenvolvimento cerebral é a adolescência, quando o sistema nervoso central começa a produzir hormonas sexuais como nunca antes.

Durante este período, a matéria branca continua a aumentar de volume e as redes cerebrais passam por um refinamento ainda maior. A eficiência da comunicação, tanto a nível local como global, melhora ano após ano.

Mas, como tudo o que cresce, esta progressão também acaba por estabilizar. Aos 32 anos, a arquitetura do cérebro começa a entrar numa fase de estabilidade, precisamente numa idade em que outros estudos apontam também para um patamar na inteligência e na personalidade.

Costuma dizer-se que o cérebro atinge a maturidade total por volta dos 20 e muitos anos. Mas isso pode ser uma explicação simplista que se aplica apenas a certas regiões cerebrais, como o sistema límbico e o córtex pré-frontal, amplamente envolvidos nas emoções e na tomada de decisões.

O novo estudo sugere que o cérebro só amadurece muito mais tarde do que se pensava.

"Com base apenas na arquitetura neural, descobrimos que as mudanças estruturais típicas da adolescência só terminam no início da casa dos trinta", afirma Mousley.

"Por volta dos 32 anos, observamos as alterações mais direcionais na organização das ligações e a maior mudança global de trajetória, em comparação com todos os outros pontos de viragem."

Durante esta época, as regiões cerebrais tornam-se mais segregadas e compartimentadas - um processo lento que se prolonga durante três décadas.

Depois, por volta dos 66 anos, a arquitetura cerebral começa a revelar os primeiros sinais ligeiros de deterioração. Ano após ano, as suas redes estruturais tornam-se mais esparsas, à medida que as ligações neurais perdem densidade e eficiência.

"Os dados sugerem que uma reorganização gradual das redes cerebrais culmina em meados dos sessenta", diz Mousley.

"Provavelmente, isto está relacionado com o envelhecimento, com uma conectividade ainda mais reduzida à medida que a matéria branca começa a degenerar."

Aos 83 anos, o cérebro apresenta um declínio mais evidente. A época final do estudo baseia-se numa amostra mais pequena do que as restantes faixas etárias, mas a sua característica principal, segundo os investigadores, é a passagem de uma carga cognitiva global para uma mais local.

Nesta fase, a conectividade de todo o cérebro está em declínio, deixando as redes locais a suportar uma maior parte do esforço cognitivo da pessoa.

Os cientistas ainda desconhecem muito sobre a forma como estas alterações cerebrais afetam a saúde e o comportamento, pelo que estes resultados apenas podem dar algumas pistas sobre o que acontece nos bastidores.

Também é necessária investigação mais direcionada em certas fases da vida, sobretudo nos grupos mais velhos. Muito recentemente, por exemplo, um estudo com imagiologia cerebral concluiu que a menopausa está associada a alterações estruturais distintas no cérebro, o que poderá ajudar a explicar alguns dos seus sintomas mais conhecidos, como a chamada névoa mental.

"Estas eras fornecem um contexto importante para percebermos em que é que os nossos cérebros podem ser mais competentes, ou mais vulneráveis, em diferentes fases da vida", diz Mousley.

"Isso pode ajudar-nos a compreender por que razão alguns cérebros se desenvolvem de forma diferente em momentos-chave da vida, seja nas dificuldades de aprendizagem na infância ou na demência em idades mais avançadas."

O estudo foi publicado na revista Nature Communications.

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