No Centro Hospitalar Universitário de Clermont-Ferrand, em França, está a decorrer uma experiência que soa a pequena revolução: cães de doentes internados em cuidados intensivos podem, sob regras muito apertadas, entrar na unidade de reanimação. Por detrás desta cena aparentemente ternurenta existe um projeto de investigação cuidadosamente planeado, que levanta uma questão delicada: o próprio cão pode ajudar, de forma mensurável, a atravessar melhor do ponto de vista emocional o período extremamente exigente da unidade de cuidados intensivos - e será possível organizar isso com segurança?
Um cão entre suportes de soro: o que está por trás do estudo
O nome do projeto é técnico: “Animais de Companhia a Potenciar Terapêuticas nas Unidades de Cuidados Intensivos”. Trata-se de um estudo clínico iniciado a 11 de fevereiro de 2026 no Centro Hospitalar Universitário de Clermont-Ferrand. As investigadoras e os investigadores querem perceber de que forma as visitas de cães afetam a experiência psicológica de pessoas em estado crítico internadas em cuidados intensivos.
Para muitas pessoas doentes, a passagem para a unidade de cuidados intensivos representa uma rutura com tudo o que era familiar. O dia a dia desaparece de repente. O ritmo do sono, os ruídos, os cheiros - tudo muda. Muitas estão sedadas, desorientadas ou com medo. Os familiares veem-nas, muitas vezes, apenas por breves momentos e sob condições estritas. A solidão emocional é algo que quase ninguém consegue preencher.
É precisamente aí que o estudo intervém. As equipas de Clermont-Ferrand partem de uma convicção que muitos profissionais e famílias já partilham há muito: o cão da própria pessoa pode funcionar como uma espécie de âncora emocional. Não como uma distração fofa, mas como um ponto de referência estável numa situação em que quase todos os pontos de referência desapareceram.
Os investigadores querem verificar cientificamente se o cão familiar ajuda de forma percetível um doente em cuidados intensivos - e se isso pode ser organizado em segurança.
O que distingue esta iniciativa é o facto de não se tratar de visitas ocasionais do género “vamos abrir uma exceção”. O projeto segue um protocolo de estudo rigoroso em três áreas de cuidados intensivos: a unidade de cuidados intensivos de adultos do Hospital Estaing e as unidades de neuro-reanimação e de cirurgia médica e cirúrgica do Hospital Gabriel-Montpied.
Protocolo rigoroso em vez de sessão de mimos por intuição
Antes de pensar numa aplicação em larga escala, as investigadoras e os investigadores querem esclarecer uma questão central: num contexto tão sensível, isto é sequer exequível sem colocar mais riscos para as pessoas doentes?
Para isso, o centro hospitalar trabalha com uma equipa interdisciplinar:
- uma médica veterinária da escola VetAgro Sup, em Lyon, responsável pelos controlos de saúde dos cães,
- um treinador profissional de cães, que forma o pessoal e avalia o comportamento dos animais,
- equipas de higiene e o comité hospitalar de higiene clínica,
- profissionais de enfermagem e médicas voluntárias das três unidades de cuidados intensivos envolvidas.
A primeira fase do estudo tem um objetivo deliberadamente estreito: não se procura, em primeiro lugar, saber se os cães melhoram o estado das pessoas afetadas. Primeiro, o que conta é apenas a viabilidade prática sob normas de segurança muito exigentes.
Para isso, a equipa estabeleceu um critério concreto: o estudo será considerado bem-sucedido se pelo menos 8 dos 21 cães inscritos conseguirem, de facto, entrar num quarto de doente nas condições definidas pelo protocolo. Este indicador, seco e objetivo, decidirá se avançam estudos posteriores e de maior dimensão sobre os efeitos emocionais.
Só quando ficar demonstrado que as visitas dos cães podem ser organizadas com segurança é que os especialistas querem medir de forma direcionada a depressão, a ansiedade, a dor e a confusão durante o tratamento em cuidados intensivos.
Higiene em primeiro lugar: regras apertadas para os visitantes de quatro patas
Um cão no quarto de cuidados intensivos soa, de forma imediata, a risco de infeção - e é exatamente essa preocupação que os responsáveis levam a sério. Nada neste projeto acontece de forma espontânea ou “por instinto”.
A saúde e o comportamento dos cães no centro do estudo
Cada cão tem de cumprir um conjunto completo de critérios antes de sequer se ponderar uma visita:
- vacinação completa, incluindo contra a raiva, a leptospirose, a doença de Carré, a hepatite e a parvovirose,
- desparasitação recente, pelo menos 48 horas antes da visita,
- ausência de sinais de doenças transmissíveis,
- temperamento calmo e afável, sem agressividade,
- segurança em saídas fora de casa, incluindo um teste de comportamento diretamente no hospital.
Antes do primeiro contacto, a família recebe também um pano da área de cuidados intensivos, com o cheiro da unidade e dos equipamentos. Assim, o cão pode habituar-se gradualmente a um ambiente desconhecido. Esta medida simples diminui o stress - para o animal e, de forma indireta, também para a equipa.
Rotinas antes, durante e depois da visita
Também à volta da própria visita existem procedimentos claramente definidos. Um encontro típico decorre mais ou menos assim:
| Fase | Procedimento |
|---|---|
| Preparação | Controlo higiénico do cão, avaliação do estado da pessoa doente, proteção de todos os acessos e tubos |
| Visita | Contacto breve, acompanhado de perto, no quarto; o cão mantém-se preso pela trela; uma profissional acompanha o animal |
| Pós-visita | Troca da roupa da cama, dos pensos e da camisola do doente, limpeza minuciosa do quarto |
O trabalho é intenso, sobretudo numa unidade que já vive sob pressão. E essa realidade faz parte da pergunta de investigação: será possível integrar um processo destes na rotina sem bloquear fluxos de trabalho nem aumentar riscos?
Só se higiene, segurança e organização diária puderem funcionar em conjunto é que as visitas de cães em cuidados intensivos terão futuro.
Cuidados intensivos mais humanos: mais do que tecnologia e medicamentos
Por detrás do estudo está um movimento mais amplo na medicina intensiva: o de não olhar apenas para máquinas, valores laboratoriais e medicamentos, mas também para a experiência emocional das pessoas doentes.
Muitas clínicas já tentam manter os familiares mais tempo junto da cama, reduzir os níveis de ruído ou respeitar melhor os ritmos de dia e noite. O cão encaixa nesta lógica: não como terapia milagrosa, mas como mais um elemento de um ambiente mais humano.
Especialmente em cuidados intensivos, muitas pessoas sofrem com ansiedade, pesadelos ou delírio, ou seja, estados agudos de confusão. Estudos anteriores realizados noutros países mostram que intervenções assistidas por animais podem baixar a frequência cardíaca e a tensão arterial e reduzir hormonas do stress - na maioria das vezes fora da medicina intensiva, por exemplo em geriatria ou oncologia.
As investigadoras e os investigadores de Clermont-Ferrand querem avaliar se estes efeitos também se manifestam nas condições extremas da unidade de cuidados intensivos - com o próprio cão, em vez de um “cão terapeuta de serviço de visitas”.
Efeitos psicológicos: o que os investigadores querem medir
Se a fase de viabilidade der luz verde, vários parâmetros passarão a estar no centro das análises futuras:
- Estado de espírito: as pessoas doentes sentem-se menos abatidas após a visita?
- Ansiedade e inquietação interior: os valores de ansiedade descem em questionários padronizados?
- Perceção da dor: os doentes relatam menos dor ou menor necessidade de analgésicos?
- Episódios de delírio: as fases de confusão surgem com menos frequência ou menos intensidade?
- Memória da internamento: a estadia em cuidados intensivos fica, em retrospetiva, menos traumática?
Este tipo de fatores não se mede apenas com análises laboratoriais ou parâmetros de ventilação. Exige conversas, escalas e observação - ou seja, uma ideia diferente de “sucesso” na medicina.
Riscos e limites: quando as visitas de cães não se aplicam
Por mais simpática que a ideia pareça, ela não se adapta a todos os casos. Alguns riscos continuam bem reais:
- pessoas com o sistema imunitário gravemente enfraquecido podem precisar de uma redução máxima de germes, e qualquer risco adicional é particularmente sensível;
- alergias a pelos de animais excluem, na maioria das vezes, a visita de um cão;
- algumas pessoas podem ficar sobrecarregadas por estímulos adicionais, por exemplo em caso de delírio intenso ou após cirurgias cerebrais recentes;
- também o cão pode ficar stressado: ruídos estranhos, cheiros diferentes, movimentos invulgares da pessoa doente.
Por isso, cada trio animal-família-pessoa doente continua a ser avaliado caso a caso. A equipa decide sempre se a visita prevista é adequada à situação concreta. Não existe imposição - nem a pessoa nem o cão têm de “funcionar” à força.
O que esta experiência significa para hospitais de língua portuguesa
O estudo de Clermont-Ferrand dirige-se, para já, às sociedades científicas francesas, mas as questões que levanta têm alcance internacional - também para hospitais em Portugal. Muitas instituições já discutem maior flexibilidade nas visitas e medidas complementares para aliviar o peso emocional.
Cenários concretos mostram como resultados vindos de França podem ter impacto por cá:
- as orientações para cuidados intensivos podem incluir o contacto com cães como uma opção possível, com critérios claros de higiene;
- os programas de formação para profissionais de enfermagem podem integrar módulos sobre intervenções assistidas por animais;
- os hospitais terão de esclarecer questões de responsabilidade civil, seguro e procedimentos com autoridades veterinárias e especialistas em higiene.
Se os dados mostrarem que as visitas de cães são viáveis e úteis, surge um novo argumento nas discussões sobre restrições de visitas - por exemplo durante surtos de gripe ou futuras pandemias. Regras diferenciadas, em vez de proibições gerais, poderão ganhar mais peso.
Como o efeito poderia sentir-se no dia a dia
No papel, tudo gira em torno de escalas, pontuações e protocolos. À cabeceira da cama, a diferença pode sentir-se de forma muito mais simples. Uma pessoa acorda, sente tubos e fixações, sente-se à mercê da situação. Depois ouve um ofegar familiar, sente o pelo sob a mão. Durante alguns minutos, a doença recua para segundo plano e regressa a memória dos passeios ou das rotinas.
Esse reencontro breve com o “antes” pode dar orientação: eu sou mais do que o meu monitor; tenho uma vida lá fora; há alguém à minha espera. Ideias destas são difíceis de medir em miligramas ou valores gasométricos, mas influenciam muitas vezes a forma como as pessoas atravessam a doença.
Também vale a pena olhar para o outro lado: para muitos tutores, o cão é um membro da família. Saber que esse animal tem a oportunidade de voltar, mesmo que por instantes, junto da cama, pode reduzir sentimentos de culpa ou de impotência. Isso também muda a forma como uma família vive e processa uma crise.
O que os leigos devem entender por “delírio” e “apoio não farmacológico”
No contexto das estadias em cuidados intensivos, surge frequentemente o termo “delírio”. Trata-se de um estado agudo de confusão: a pessoa não sabe ao certo onde está, pode ter alucinações, ficar extremamente agitada ou, pelo contrário, apática. Os medicamentos, a privação de sono e o ambiente desconhecido desempenham aqui um papel. Estas experiências costumam deixar marcas muito depois da alta.
É aqui que entra a ideia de “apoio não farmacológico”. Em vez de recorrer apenas a mais medicamentos, procura-se organizar o ambiente de forma a que a pessoa se consiga orientar e acalmar melhor: vozes familiares, luz do dia, contacto com familiares - e talvez também o próprio cão. O corpo reage com níveis mais baixos de stress, o que pode favorecer a recuperação.
O cão não substitui um ventilador nem a medicina intensiva - mas pode acompanhá-los do ponto de vista emocional.
Se o estudo de Clermont-Ferrand acabará ou não por estabelecer novos padrões só ficará claro quando os dados forem analisados. O que já é evidente é que ele coloca no centro uma pergunta que, em ambientes altamente tecnificados, se perde facilmente: quanta proximidade, relação e familiaridade precisa uma pessoa para que, mesmo na situação mais frágil, não se limite a sobreviver, mas também não colapse por dentro.
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