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Corvo engenhoso: este corvo planeia, troca e constrói ferramentas.

Corvo negro usando um pau para apanhar uma noz numa caixa transparente numa mesa de madeira.

Parecem negros, grasnam de forma rouca - e antecipam o futuro mais do que muitos supõem: os corvos deixam os investigadores sem respostas.

Quando se fala em planear o futuro, a imagem que costuma surgir é a de pessoas: fundos de pensões, metas de carreira, férias marcadas. Mas uma ave discreta, de plumagem negra como o breu, está a obrigar a ciência a reescrever essa ideia - e a pôr em causa a última grande fronteira entre o ser humano e os outros animais.

Um corvo negro com capacidades que ninguém esperava

Durante muito tempo, os corvos foram vistos como companheiros sinistros em lendas e mitos. Hoje, estão em laboratório, diante de câmaras e aparelhos de teste - e fornecem dados que deixam os neurocientistas admirados. Porque estas aves:

  • planeiam acções com muitas horas de antecedência,
  • utilizam e constroem ferramentas,
  • trocam objectos como num mercado improvisado em troca de recompensas melhores,
  • e resistem a guloseimas imediatas para obter mais mais tarde.

Os corvos conseguem, em testes, desempenhos cognitivos que, em parte, se aproximam dos dos grandes símios - e, em certas situações, até os ultrapassam.

Isto está muito longe da imagem de um “cérebro pequeno de ave”. Precisamente por isso, o corvo é hoje considerado um dos modelos animais mais interessantes da investigação cognitiva moderna.

Como os investigadores descobriram que os corvos pensam no futuro

Uma atenção especial foi dada a um estudo da Universidade de Lund, na Suécia, de 2017. A pergunta era esta: consegue um corvo preparar-se para um acontecimento que só terá lugar muitas horas depois - e guardar entretanto a ferramenta certa?

A experiência com ferramentas, em pormenor

O desenho da experiência lê-se quase como um teste de inteligência para crianças:

  • Primeiro, os corvos aprendem a abrir uma caixa específica com uma determinada ferramenta de pedra, onde está a sua comida favorita.
  • Depois, a caixa desaparece novamente da sala. Nada faz prever que voltará mais tarde.
  • Após uma pausa - por vezes de 15 minutos, por vezes até 17 horas - as aves recebem vários objectos à escolha, incluindo a ferramenta correcta.
  • Só depois disso é que a caixa conhecida reaparece.

A surpresa: a maioria dos corvos escolheu de forma dirigida a pedra certa e guardou-a para, mais tarde, abrir a caixa. Ou seja, tiveram de manter em mente uma situação futura, mesmo sem a verem, e alinhar o comportamento do presente com esse objectivo posterior.

Isto distingue claramente este comportamento do simples armazenamento de reservas, como sucede, por exemplo, com os esquilos. Aqui não se trata de acumular por precaução, mas de um plano muito específico: “Preciso exactamente desta ferramenta para exactamente esta tarefa - algures mais à frente.”

Quando as aves agem como comerciantes

A equipa sueca testou ainda outra coisa: conseguem os corvos agir como comerciantes astutos e reter a recompensa para tirarem mais proveito depois?

As aves receberam primeiro pedaços de recompensa ou “tokens” neutros, ou seja, objectos de troca. Mais tarde, os cientistas deram-lhes a possibilidade de trocar esses tokens por alimento especialmente valioso. Em cada ocasião, os corvos tinham de escolher entre:

  • um pequeno petisco já,
  • ou guardar o token e trocá-lo mais tarde por algo claramente melhor.

Resultado: muitos corvos optaram deliberadamente pela opção mais vantajosa a longo prazo. Abdicaram de comer naquele momento para, mais tarde, receber uma recompensa maior - demonstrando assim uma forma de autocontrolo que até então quase só se atribuía a humanos e grandes símios.

Em situações deste tipo, os corvos tiveram, sob determinadas condições, melhor desempenho do que orangotangos, bonobos e chimpanzés.

Estes corvos têm mesmo uma “consciência do amanhã”?

No quotidiano, planear parece simples: escrever uma lista de compras, reservar férias, organizar o orçamento mensal. Do ponto de vista da investigação cerebral, porém, isso envolve um conjunto inteiro de capacidades: definir objectivos, prever consequências futuras, travar impulsos, projectar-se mentalmente no futuro.

Durante muito tempo, muitos especialistas pensaram que desempenhos desse género só podiam surgir graças à estrutura particular do cérebro humano e dos grandes símios. Os corvos não encaixam minimamente nesse modelo: o cérebro deles tem uma organização muito diferente, e não possuem um neocórtex em camadas como os mamíferos.

Ainda assim, mostram padrões comportamentais que impressionam pela semelhança. Planeiam acções em domínios que, na natureza, nem sequer lhes são típicos - por exemplo, no uso de ferramentas artificiais ou em trocas abstractas. Isso sugere que não se trata apenas de instintos rigidamente programados, mas de processos flexíveis e adaptáveis.

Planificadores geniais ou apenas extraordinariamente treinados?

Nem todos os investigadores encaram estas experiências como prova de “consciência do futuro”. Há quem defenda uma posição contrária: os corvos poderão simplesmente ser excelentes a aprender com a experiência. Associam determinadas situações a consequências posteriores, sem “reproduzir” internamente um filme do futuro.

A discussão, portanto, não é tanto se os corvos aprendem de forma complexa, mas antes como é que essa aprendizagem se organiza no cérebro. Uma coisa é certa: qualquer que seja a teoria vencedora, estas aves fornecem dados extremamente valiosos sobre os limites e as possibilidades da inteligência animal.

O que os corvos revelam sobre a inteligência no reino animal

As conclusões retiradas das experiências com corvos abalam uma ideia confortável: a de que a inteligência cresce simplesmente com o tamanho e a complexidade do cérebro. A realidade parece bastante mais matizada.

  • Os corvos têm um cérebro relativamente pequeno, mas muito densamente compacto.
  • Os seus neurónios estão organizados de forma diferente da dos mamíferos.
  • Mesmo assim, alcançam desempenhos comparáveis aos dos primatas.

A planificação parece não ser um produto exclusivo de um único tipo de cérebro, mas sim uma solução que diferentes sistemas nervosos podem encontrar de forma independente.

O termo técnico para isto é “evolução convergente”: grupos animais muito diferentes desenvolvem capacidades semelhantes porque enfrentam desafios comparáveis. Os corvos precisam de encontrar comida, escondê-la, voltar a encontrá-la, avaliar a concorrência social, formar alianças - e quem consegue pensar alguns passos à frente, simplesmente vive mais tempo.

O que acontece no dia-a-dia dos corvos selvagens?

Os estudos de laboratório são apenas uma parte do quebra-cabeças. Um passo seguinte, muito interessante, consiste em observar com rigor corvos de vida livre no terreno. Os investigadores perguntam-se, por exemplo:

  • Os corvos planeiam quando esconder comida para se anteciparem a predadores e a outros da sua espécie?
  • Guardam memória de quem lhes roubou alimento e reagem depois de forma selectiva?
  • Utilizam ferramentas na natureza, quando surge a oportunidade?

Já hoje, muitas observações sugerem que os corvos, ao esconder comida, conseguem enganar os seus observadores: fingem que estão a guardar alimento, mas fazem-no desaparecer discretamente noutro sítio. Estas manobras de engano pressupõem, pelo menos, uma noção básica do que a outra ave vê ou poderá pensar.

O que os seres humanos podem aprender com um corvo

A investigação sobre estas aves não serve apenas para gerar pequenas histórias simpáticas para as redes sociais; levanta também questões fundamentais sobre a forma como nos vemos a nós próprios. Se uma ave:

  • controla os seus impulsos,
  • manuseia ferramentas de forma planeada,
  • troca e avalia estrategicamente,
  • e reage com flexibilidade a novas situações,

então a fronteira rígida entre “pensamento humano” e “instinto animal” começa a esbater-se. Isso obriga-nos a alargar a noção de inteligência - entendida como um conjunto de estratégias distintas que podem surgir em corpos muito diferentes.

Como falar da inteligência dos corvos de forma adequada para crianças

Para pais e professores, este tema é uma excelente oportunidade para apresentar às crianças uma visão moderna dos animais. Algumas ideias concretas:

  • observar corvos na cidade em conjunto e registar comportamentos,
  • recriar uma pequena “experiência de planeamento” em que as crianças, tal como os corvos, têm de esperar por recompensas melhores,
  • falar sobre como a paciência e o pensamento antecipado também ajudam no dia-a-dia - por exemplo, a poupar para um brinquedo ou a estudar para um teste.

Desta forma, estudos laboratoriais aparentemente áridos transformam-se em histórias que se ligam directamente à vida de cada um - e que, ao mesmo tempo, mostram o quão perto estamos, mentalmente, de algumas espécies animais.

No fim, fica uma ideia pouco habitual: enquanto os corvos parecem voar sem destino sobre os telhados, alguns deles já têm, em silêncio, as próximas horas em mente - com uma ferramenta de pedra no bico e um plano bastante preciso na cabeça.

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