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Porque os melros evitam as comedouros em altura

Pardal preto junto a uma caixa de madeira com frutos e comedouro pendurado no outono.

Não se trata de teimosia, mas de uma estratégia de sobrevivência bem afinada.

Muitos donos de jardins estranham, em janeiro: as chapins ficam penduradas de cabeça para baixo nas bolas de gordura, os pardais disputam grãos, mas o melro-preto de bico amarelo limita-se a saltitar nas folhas e quase não presta atenção aos comedouros cheios, cuidadosamente colocados em altura. Quem interpreta isso como ingratidão ou falta de apetite está completamente enganado. O melro segue um instinto que se provou eficaz ao longo de milhares de anos - e, se quisermos mesmo ajudá-lo, temos de adaptar a alimentação de inverno a essa realidade.

Melros: uma ave de chão, não de acrobacias

Um pássaro feito para o solo, não para números de ginástica

Os melros não são acrobatas do ar como os chapins. O corpo deles foi pensado para a vida no chão: pernas fortes, olhos atentos, fuga rápida a correr e a voar quando há perigo. São, no sentido clássico, aves que vasculham o solo.

Os melros procuram alimento instintivamente nas folhas caídas e na terra solta - não pendurados em redes ou equilibrados em varas estreitas.

Em alimentadores instáveis, sentem-se inseguros. Isso exige concentração e consome energia, precisamente aquilo de que mais precisam no inverno para manter a temperatura corporal. Para eles, a bola de gordura aparentemente prática a dois metros do chão não parece uma mesa posta, mas sim um exercício de equilíbrio arriscado.

Grande necessidade de energia - mas com outro menu

Sobretudo quando o gelo se mantém durante dias, os melros gastam quantidades enormes de energia para conservar o calor do corpo. Ainda assim, ignoram em grande parte os grãos duros e as bolas de gordura compactas. A explicação está no bico: os melros pertencem ao grupo dos chamados “bicos macios”.

Não conseguem partir sementes duras de girassol nem abrir cascas grossas. Em comparação com tentilhões ou pardais, faltalhes força no bico. Para eles, um comedouro cheio de sementes inteiras traz mais frustração do que ajuda. Procuram bocados moles, fáceis de engolir - ou presas que encontrem no solo.

Folhas caídas como salvação: o bufete secreto debaixo da folhagem

Porque o solo por baixo da folhada não congela por completo

Quem manda o jardim “arrumado” para o inverno, sem querer dificulta a vida aos melros. A camada de folhas que parece desordenada debaixo das sebes e dos arbustos vale ouro para estas aves.

A folhagem funciona como uma camada natural de isolamento: por baixo dela, o solo permanece muitas vezes um pouco mais macio e vivo - mesmo com frio intenso.

A decomposição lenta das folhas gera um calor mínimo e impede que o terreno congele de forma uniforme e completamente rígida. Nesse microclima um pouco mais brando, sobrevivem minhocas, larvas e pequenos insetos - exatamente o que os melros precisam no inverno.

Proteína em vez de apenas gordura: o que realmente fortalece os melros

Os melros também comem sementes e frutos, mas o organismo deles pede sobretudo proteína animal: minhocas, insetos, larvas. Estes alimentos não fornecem apenas calorias; trazem também muita proteína e água - ambos decisivos para manter o desempenho no frio.

Solos ligeiramente descongelados sob folhas, sebes ou cobertura morta oferecem-lhes:

  • Minhocas, que se mantêm perto da superfície
  • Larvas de insetos no solo e no material em decomposição
  • Pequenas sementes e partes de plantas, mais macias do que bagas congeladas

Quando, em janeiro, as bagas nos arbustos estão duras como pedra e já quase não têm valor nutritivo, o solo sob a folhagem continua muitas vezes a ser a última fonte de alimento fiável.

Porque os grãos duros e as bolas de gordura muito rijas são pouco práticos para os melros

O problema do “bico macio”

Muitas misturas de alimento à venda destinam-se a aves granívoras. Para os melros, servem apenas de forma limitada. Sementes de girassol inteiras e listradas, milho-miúdo ou blocos de gordura excessivamente duros são difíceis de processar.

Para um melro, uma semente dura de girassol é mais ou menos útil do que um coco sem ferramentas.

Às vezes, comem pequenos grãos ou migalhas, mas isso exige tempo e esforço - e, a temperaturas negativas, ambos são escassos. Alimento que possa ser engolido de imediato é muito mais vantajoso.

Quando as bagas no arbusto já não ajudam

No outono, os jardins parecem muitas vezes um buffet à vontade: hera, sabugueiro, piracanta, pilriteiro, roseiras-bravas - tudo carregado de bagas. Os melros adoram esses frutos enquanto estão macios e sumarentos.

Quando o frio se prolonga, acontece o seguinte:

  • As bagas ficam duras como pedra e mal se conseguem picar.
  • Parte do valor nutritivo perde-se com o tempo.
  • Muitos arbustos já estão sem fruta em janeiro.

Nessa altura, ao melro resta olhar para baixo: para o solo, para a folhagem, para debaixo dos arbustos - precisamente onde ainda se esconde alimento macio e rico em proteína.

Como alimentar melros corretamente: restaurante ao nível do chão, e não só comedouro

O menu ideal de inverno para o cantor negro

Quem quiser apoiar os melros de forma direcionada deve apostar em comida “macia”. Exemplos adequados:

  • Maçãs e peras: podem estar enrugadas; devem ser cortadas ao meio e colocadas com a face de corte para cima.
  • Passas: de preferência demolhadas em água morna, para ficarem mais macias e sumarentas.
  • Flocos de aveia: com um pouco de óleo vegetal (colza ou girassol) para dar energia extra.
  • Alimento especial para insetívoros: misturas com larvas de farinha secas, compradas em lojas da especialidade.

Alimento macio e energético no chão ajuda os melros muito mais do que qualquer bola de gordura pendurada numa árvore.

Pão duro não é adequado, tal como restos salgados ou temperados. A gordura pura, sem outros nutrientes, também pode ser problemática para a digestão das aves.

O local perfeito: perto de abrigo, longe de armadilhas

O sítio onde se coloca a comida determina se os melros a vão utilizar - e se o farão em segurança. Preferem-na junto ao chão, mas com possibilidade de refúgio.

Tenha atenção a estes pontos:

  • Alimentar diretamente sobre terra ou relvado, e não numa varanda lisa.
  • Colocar perto de sebes ou arbustos, para que as aves possam fugir de imediato para o interior do mato em caso de perigo.
  • Manter livre um campo de visão de 1 a 2 metros em redor do local de alimentação, para que os melros detetem predadores cedo.
  • Não deixar esconderijos para gatos nas imediações: nada de vasos altos, pilhas de lenha ou cantos de muros mesmo ao lado.

Espalhe a comida em pequenos montes numa área, em vez de formar uma pilha grande. Assim, reduz as disputas, porque os melros podem ser surpreendentemente briguentos - mesmo no inverno.

Deixar as folhas no chão, oferecer água: pequenos gestos com grande efeito

Porque os jardins “arrumados” deixam as aves em apuros

No outono, muitas pessoas varrem todas as folhas e deitam-nas fora. Para os melros, isso retira ao jardim estruturas valiosas: sem manchas de folhas, sem terra solta, menos insetos - e, por isso, menos alimento de inverno.

Quem tolera montes de folhas e um pouco de “desarrumação” cria habitat em vez de apenas espaço.

Algumas medidas simples tornam o jardim mais amigo dos melros:

  • Deixar folhas sob sebes e árvores.
  • Criar pequenos montes de ramos e gravetos.
  • Plantar arbustos com bagas e sebes de espécies autóctones.
  • Não cortar a relva demasiado curta em toda a área.

A água é tão importante como a comida no frio

No inverno, poças e taças congelam depressa. Mas os melros precisam de água todos os dias - não só para beber, mas também para cuidar da plumagem.

Uma taça baixa com água morna, renovada várias vezes ao dia, ajuda imenso. Não deve ser demasiado funda, para que as aves não escorreguem nem fiquem encharcadas. O melhor é colocá-la perto de arbustos, mas com boa visibilidade.

Mais canto na primavera graças a bons cuidados no inverno

Quem ajuda os melros a passar o inverno colhe benefícios mais tarde: os sobreviventes ocupam territórios, nidificam nas proximidades e enchem o jardim de canto na primavera. Sobretudo em zonas residenciais, onde faltam insetos e os jardins estão muito impermeabilizados, cada melro que resiste conta.

Há ainda um efeito adicional: ao longo do resto do ano, os melros comem grandes quantidades de caracóis, larvas e outras pragas do jardim. Portanto, ao apoiá-los com alimentação de inverno adequada, está também, de forma indireta, a promover um serviço natural de controlo de pragas no jardim.

Bastam alguns gestos ajustados - ilhas de folhas em vez de corte raso, alimento macio no chão, um local seguro para comer e um pouco de água - para decidir se o cantor negro morre silencioso ao frio em janeiro ou se, em abril, volta a cantar de manhã a partir da cumeeira do telhado.

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