Uma investigação recente está agora a pintar um retrato surpreendentemente diferente destes animais.
Desde Tubarão e de inúmeros filmes de terror sobre tubarões, o receio dos predadores do oceano ficou profundamente enraizado. No entanto, estudos recentes sugerem outra coisa: por trás da fileira afiada de dentes existe muito mais do que um instinto sedento de sangue. Os tubarões têm personalidade própria - e alguns, quando confrontados com a incerteza, podem ser bem mais receosos do que quem está a banhos na praia.
Porque é que temos tanto medo dos tubarões
Os tubarões estão entre os animais mais temidos do planeta. Isso deve-se apenas em parte a ataques reais. Uma grande parcela dessa imagem nasceu das representações que o cinema e os meios de comunicação têm alimentado durante décadas: bocas gigantes, olhos ávidos, silhuetas agressivas sob a superfície da água.
Psicólogos e psicólogas até têm um termo específico para isso: Sélacofobia, o medo intenso, muitas vezes completamente desproporcionado, de tubarões. Quem sofre deste problema evita não só o mar aberto, mas, por vezes, qualquer contacto com a água - mesmo quando ali nunca poderia aparecer um tubarão.
Do ponto de vista objectivo, o risco mantém-se baixo: em todo o mundo, morrem muito menos pessoas devido a tubarões do que por vacas, cães ou águas-vivas. Ainda assim, a imagem do peixe-monstro continua a moldar o nosso pensamento. E é precisamente essa imagem que a investigação começa agora a desmontar.
Tubarões com personalidade: o que os investigadores descobriram na Austrália
Um estudo muito citado de 2016, publicado no Journal of Fish Biology, analisou os tubarões com mais detalhe. No centro da investigação estiveram 17 tubarões jovens da espécie tubarão-port-jackson, que vive ao largo da costa da Austrália. A questão principal era simples: será que cada tubarão se comporta da mesma forma, ou revela traços próprios de carácter?
Teste 1: prova de coragem junto ao tanque
No primeiro teste, os investigadores colocaram os animais num esconderijo protegido dentro de um tanque. Após um curto período de adaptação, abriu-se uma porta de correr. A partir daí começou a contagem: quanto tempo demorava cada tubarão a sair do refúgio seguro e a explorar o tanque aberto?
Alguns tubarões avançaram quase de imediato, enquanto outros demoraram bastante a sair - um indício claro de diferenças entre audácia e cautela.
Essa diferença não surgiu por acaso. Certos animais repetiam sempre o mesmo padrão: o “destemido” mantinha-se ousado, o “tímido” continuava prudente. Isto aponta para traços estáveis de personalidade, tal como acontece em cães ou aves.
Teste 2: como reagem os tubarões à tensão?
No segundo teste, os cientistas quiseram perceber de que forma os animais lidavam com a tensão. Para isso, retiraram cada tubarão da água durante um minuto - uma perturbação enorme para um animal marinho. Logo a seguir, o tubarão era devolvido ao tanque.
De seguida, os investigadores mediram a distância percorrida por cada tubarão depois dessa experiência e compararam-na com o padrão de movimento observado no primeiro teste. Alguns animais percorriam claramente mais quilómetros depois da tensão, enquanto outros se mantinham mais calmos.
O resultado foi este: os tubarões que tinham sido mais ousados no primeiro teste mostravam, mais tarde, uma reacção mais serena perante a tensão. Os tubarões cautelosos mantinham-se, regra geral, mais assustadiços e nervosos. Ou seja, os animais demonstravam traços consistentes de carácter, visíveis em contextos diferentes.
Tubarões grandes, menos tensão: o que o tamanho do corpo tem a ver com a coragem
O estudo concluiu ainda que os tubarões maiores pareciam, em muitos casos, mais audazes e menos afectados pela tensão. Os exemplares mais pequenos mostravam com maior frequência comportamentos de receio. Isto encaixa no padrão de muitas espécies animais: quem também pode servir de presa tende a agir com mais prudência. Um animal de maior porte ocupa um lugar mais alto na cadeia alimentar e consegue comportar-se de forma mais descontraída.
Tubarões corajosos não são, automaticamente, mais perigosos, e tubarões receosos não são, por defeito, inofensivos - a realidade é mais complexa.
Os investigadores alertam para o perigo de tirar conclusões directas sobre o risco de ataque a humanos a partir desta observação. Um tubarão grande e calmo pode aproximar-se por curiosidade sem atacar. Já um tubarão pequeno e sob tensão pode morder por pânico se se sentir encurralado.
Porque é que a personalidade dos tubarões interessa para nós
A constatação de que os tubarões têm traços individuais não é apenas um pormenor curioso da biologia marinha. Pode ajudar a avaliar melhor o risco de encontros entre pessoas e tubarões. Quanto mais precisamente os investigadores conhecerem as espécies, os habitats e os padrões típicos de personalidade, melhor será a identificação de zonas de risco.
Entre esses factores contam-se, por exemplo:
- Determinados troços de costa, onde existam muitos tubarões curiosos ou com comportamento territorial.
- Épocas do ano, em que os tubarões se aproximam mais das praias para acasalar ou procurar alimento.
- Condições meteorológicas e da água, nas quais os tubarões mostram com mais frequência comportamento de caça.
Quando estes factores são conhecidos, é possível vigiar as praias de forma mais eficaz, melhorar os sistemas de alerta e informar os banhistas com maior realismo. Assim, o medo perde parte do seu peso sem que os perigos concretos sejam minimizados.
Os tubarões não são máquinas de caça sem sentimentos
Há anos que a investigação sobre personalidade animal está em forte crescimento. Nos peixes, continua a causar surpresa, porque muita gente ainda os vê como seres simples, governados apenas pelo instinto. Os estudos com tubarões juntam-se agora a uma longa lista de trabalhos que mostram o contrário: também os peixes têm padrões de comportamento individuais, respondem de forma diferente à tensão e exploram o ambiente ora com mais prudência, ora com mais ousadia.
Isto altera de forma profunda a forma como olhamos para estes animais. Quem vê um tubarão apenas como uma “máquina de comer” ignora que se trata de um ser vivo adaptável, capaz de aprender, com o seu próprio temperamento. E é precisamente esta mudança de perspectiva que pode ajudar a manter o respeito pelo animal sem o transformar, por reflexo, num demónio.
O que os banhistas podem retirar destas novas conclusões
Para quem passa férias junto ao mar, continuam a fazer sentido algumas regras simples - independentemente de o tubarão em questão ser mais destemido ou mais assustadiço:
- Não nadar sozinho para longe da costa, sobretudo em água turva.
- Não dar peixe nem entrar na água com restos de comida.
- Evitarem-se os períodos de lusco-fusco, quando em algumas regiões os tubarões caçam com maior actividade.
- Levar a sério os avisos e as indicações locais na praia.
Quem segue estas orientações básicas reduz ainda mais o risco - e pode desfrutar do mar com muito mais tranquilidade.
Como os investigadores medem a personalidade nos animais
Quando os especialistas falam em “personalidade” nos animais, referem-se a padrões de comportamento repetidos, que surgem em diferentes contextos. As dimensões mais comuns são:
- Coragem versus prudência
- Actividade versus contenção
- Curiosidade versus timidez
- Propensão para a tensão versus serenidade
Nos tubarões, os cientistas recorrem a testes com esconderijos, estímulos inesperados, ambientes alterados ou perturbações de curta duração. O essencial é que o animal não pareça apenas corajoso ou receoso uma vez, mas que revele esse mesmo padrão repetidamente.
Estas análises dão muito trabalho, mas oferecem informações valiosas sobre o comportamento de populações inteiras. Também ajudam na protecção de espécies ameaçadas, porque os planos de gestão podem ser ajustados de acordo com os padrões típicos de reacção.
Mais respeito, menos pânico: como pode nascer uma nova imagem dos tubarões
O facto de os tubarões terem carácter não lhes tira qualquer fascínio. Pelo contrário: o monstro cru e simplista dá lugar a um predador complexo, com particularidades próprias. Isso não torna os encontros automaticamente seguros, mas torna-os mais compreensíveis.
Quem pensa em tubarões deve, por isso, guardar duas ideias ao mesmo tempo: o respeito por um predador de topo que vive em liberdade e a noção de que este animal também conhece medo, vive sob tensão e não interpreta todos os movimentos na água como alimento. No fim, um olhar sereno e informado ajuda mais do que qualquer cena de terror vinda do cinema.
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