O novo Pacote Automóvel apresentado pela Comissão Europeia promete mexer com o setor, ao introduzir uma dose bem-vinda de pragmatismo numa área que, nos últimos anos, tem estado demasiado presa a metas difíceis de compatibilizar com a realidade do mercado.
De entre todas as medidas anunciadas, a mais importante será, muito provavelmente, a criação de uma nova categoria de veículos elétricos mais simples e económicos. É uma tentativa evidente de acelerar a democratização do automóvel elétrico, sem abandonar o objetivo de longo prazo de uma mobilidade de zero emissões na Europa.
Na prática, a Iniciativa Small Affordable Cars (carros pequenos e acessíveis) permitirá que automóveis elétricos com até 4,2 m de comprimento - bem longe da ideia de microcarros, à semelhança dos kei cars japoneses - possam ser vendidos sem terem de cumprir todas as exigências regulamentares, vistas como excessivas para modelos de entrada de gama. Isto poderá traduzir-se em menos custos, menor complexidade e prazos de desenvolvimento mais curtos.
O mesmo pacote prevê também processos de homologação mais simples e céleres, aproximando o produto final das necessidades reais do consumidor europeu, em vez de o moldar apenas para responder a exigências administrativas.
Existem ainda outras vantagens associadas, desde um enquadramento fiscal mais favorável até à isenção do pagamento de portagens. A aplicação concreta de todas estas medidas continua a levantar algumas dúvidas, mas o sinal político é inequívoco.
Palmela no centro do tabuleiro europeu
É neste enquadramento que a Iniciativa Small Affordable Cars surge num momento especialmente oportuno para a «nossa» Autoeuropa. A metáfora do “Euromilhões” não é exagerada: o próximo modelo a ser produzido em Palmela encaixa na perfeição nesta nova moldura regulamentar.
Falamos do citadino elétrico que nascerá do ID.Every1 - tem sido referido como ID.1, embora a designação final ainda esteja por confirmar - e que será o primeiro modelo elétrico produzido pela Autoeuropa, a partir de 2027.
Está anunciado com um preço de entrada de 20 mil euros, mas esta iniciativa europeia aumenta a possibilidade de o valor descer, tal como a de ser fabricado em volumes mais elevados.
Ao mesmo tempo, a Autoeuropa reforça o seu peso estratégico dentro do Grupo Volkswagen, juntando-se às «irmãs» espanholas (Martorell e Pamplona), que irão produzir os totalmente elétricos Volkswagen ID. Polo e ID. Cross, bem como o CUPRA Raval e o Skoda Epiq.
Numa altura em que várias fábricas europeias enfrentam incertezas, a unidade de Palmela pode ganhar maior importância e a desejada estabilidade. Ganhar o Euromilhões continua a ser improvável, mas se não se jogar, as poucas probabilidades passam a ser nenhumas. E a Autoeuropa, desta vez, parece ter escolhido os cinco números e as duas estrelas (certas) com bastante antecedência.
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