Com os primeiros dias quentes, não desperta apenas a vontade de cuidar do jardim, mas também a atividade dos répteis. O que parece um pormenor inocente ao lado de canteiros e sebes pode transformar-se, para as cobras, num apartamento de luxo com aquecimento pelo chão - mesmo onde as crianças brincam e se anda descalço na relva.
Na primavera no jardim: é precisamente agora que as cobras ficam ativas
Entre meados de março e o fim de maio, as cobras saem do torpor invernal. Nesta fase, procuram de forma deliberada ilhas de calor para acelerar o metabolismo. Para isso, precisam de temperaturas em torno dos 25 a 30 graus. Esses valores raramente se atingem no ar, mas surgem com muito mais frequência junto ao solo - em pontos muito específicos do jardim.
Os locais de transição são os preferidos: zonas entre o relvado e a sebe, entre muros e canteiros, junto a relva alta, fiadas de pedras ou pilhas de lenha. Aí os animais encontram várias vantagens ao mesmo tempo: sombra e humidade, proteção visual, esconderijos - e, consoante o revestimento do solo, também calor acumulado.
Onde o ser humano vê uma “esquina do jardim com tralha”, a cobra identifica um microclima perfeito com abrigo, presas e calor.
Em França, são comunicados todos os anos mais de 1.000 casos de mordedura, na maioria provocados por víboras. A atividade aumenta nos anos quentes e prolonga-se até ao outono. Embora esta situação não possa ser transposta diretamente para Portugal ou para a Alemanha, deixa uma mensagem clara: quem volta a mexer nos canteiros na primavera está precisamente a entrar no habitat preferido destes animais.
O íman discreto para serpentes: a mangueira no chão
A estrela discreta entre os objetos que atraem serpentes é a mangueira de jardim, colocada esticada ou enrolada sobre o chão. Verde, cinzenta ou escura, muitas vezes meio escondida na relva, parece fazer parte natural do jardim - e é exatamente isso que a torna tão apelativa.
Vários fatores conjugam-se:
- Retenção de calor: A superfície lisa aquece rapidamente ao sol da tarde e mantém-se quente por mais tempo do que o ar.
- Humidade: Depois da rega, forma-se condensação e o solo fica frequentemente húmido - ideal para um clima equilibrado.
- Proteção: Uma mangueira enrolada cria pequenos espaços ocos onde um animal se pode enroscar sem ser notado.
- Camuflagem: A cor e a forma lembram, à distância, uma cobra - para os predadores, motivo suficiente para manterem distância.
Para uma cobra, uma mangueira é, portanto, uma espécie de radiador ao nível do chão com esconderijo incorporado. Até exemplares maiores, como uma cobra com cerca de 1,5 metros, encontram espaço suficiente para se ocultarem e aquecerem.
Antes de pegar, olhe sempre primeiro: agarrar uma mangueira sem verificar pode, no pior dos casos, terminar numa surpresa muito desagradável.
Objetos de jardim que atraem especialmente as cobras
A mangueira não é o único objeto problemático. Tudo o que acumula calor e fica pousado no chão pode tornar-se num local favorito. Exemplos típicos:
Lonas escuras e películas
Lonas de cobertura pretas ou verde-escuras sobre canteiros, pilhas de madeira ou materiais de construção aquecem-se de forma intensa. Debaixo de uma lona escura dobrada podem facilmente atingir-se 28 graus, mesmo quando a temperatura do ar é apenas de 15 graus. Em baixo fica escuro, protegido do vento e seguro - do ponto de vista da cobra, ideal.
Chapas metálicas e chapas trapezoidais
Chapa ondulada ou outras placas de metal simplesmente pousadas no chão funcionam de forma semelhante. O metal retém o calor do sol e, por baixo, forma-se um espaço tranquilo e resguardado. Um paraíso para répteis, insetos - e, por consequência, também para ratos, que acabam por servir de presa.
Placas de fibrocimento e restos de obras
Placas de fibrocimento ou outras placas de construção colocadas sobre terra nua também são muito apreciadas. Criam um espaço seco e com temperatura estável entre a placa e o solo. Se ainda houver lixo de jardim empilhado à volta, forma-se um verdadeiro ponto de encontro para cobras.
Princípio básico: materiais planos e escuros diretamente no chão criam, com poucos gestos, hotéis perfeitos para répteis.
Como tornar o seu jardim menos apelativo para cobras
A boa notícia: com pequenas alterações, é possível reduzir bastante o risco sem magoar nem afugentar os animais. As cobras estão protegidas de forma rigorosa em muitos países - também na Alemanha, em geral, são amplamente protegidas e não podem ser mortas nem perturbadas de forma intencional.
Guardar a mangueira corretamente
- Depois de cada rega, enrole a mangueira num suporte de parede ou num carrinho enrolador.
- Não a deixe na relva alta nem junto de arbustos densos.
- Repare as zonas danificadas para evitar que a área permaneça húmida durante muito tempo.
- Verifique regularmente se há tralha à volta da torneira e da ligação da mangueira.
Colocar corretamente lonas, placas e madeira
Quem usa lonas escuras, chapas ou placas deve evitar deixá-las diretamente sobre terra nua. O melhor é:
- Encostá-las a uma parede ou guardá-las sobre paletes e cavaletes, para que o ar circule por baixo.
- Não criar cantos húmidos onde se acumulem folhas, água e lixo.
- Elevar as pilhas de madeira pelo menos 20 centímetros acima do solo.
Com estas pequenas folgas cria-se uma corrente de ar que torna o local pouco apelativo. As cobras gostam de calor, sim, mas não de cavidades abertas e correntes de ar onde se sintam desprotegidas.
Como agir em segurança no seu próprio jardim
Antes de, na primavera, mover pela primeira vez na estação lonas, pilhas de madeira ou placas antigas, vale a pena seguir um procedimento seguro:
- Calçar sapatos fechados ou botas de borracha e vestir luvas grossas.
- Observar com calma primeiro: há movimentos, restos de pele, fezes de cobra?
- Levantar sempre os objetos suspeitos na sua direção, nunca inclinando-os para longe de si.
- Nunca meter a mão às cegas debaixo de lonas, pedras ou placas.
Quem olha primeiro e só depois toca não reduz apenas o risco de encontrar uma cobra: também poupa as costas e os nervos.
As crianças, em especial, devem saber que não podem simplesmente meter a mão “por baixo da cobertura” ou em pilhas de madeira. Uma explicação curta e objetiva resulta melhor do que assustá-las.
Quão perigosas são, na verdade, as cobras no jardim?
A maioria das espécies nativas é tímida e só morde quando se sente encurralada. Muitas das cobras que assustam os jardineiros amadores são cobras não venenosas. Fogem assim que sentem uma vibração. As espécies venenosas ocorrem apenas em pontos específicos, consoante a região, e evitam o contacto próximo com pessoas.
Mesmo assim, uma mordedura deve ser levada a sério. Quem for mordido deve manter a calma, imobilizar a zona afetada e procurar assistência médica. Mesmo no caso de espécies não venenosas, existe risco de infeção devido aos germes existentes na boca.
Conselhos práticos para um jardim “amigo das cobras” no bom sentido
Além das medidas já referidas, algumas regras simples ajudam a diminuir os encontros com cobras:
- Cortar a relva regularmente e manter os caminhos baixos.
- Permitir apenas pequenas zonas de relva alta e densa onde ninguém ande descalço.
- Não colocar compostores e pilhas de madeira diretamente junto a terraços ou áreas de brincadeira.
- Não deixar restos de comida de animais no jardim, porque atraem ratos.
Quem cultiva o jardim de forma mais natural não precisa de abdicar da diversidade de espécies. Muitas soluções podem ser organizadas de modo a que os refúgios para répteis fiquem mais na periferia do terreno, longe das zonas de estar e de brincadeira.
No fim, a medida mais importante continua a ser muito simples: não deixar a mangueira largada na relva. Este pequeno conforto transforma rapidamente um jardim sossegado num ponto de encontro inesperado para cobras - e precisamente nas situações de que ninguém precisa.
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