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Quando o cão se esfrega continuamente no focinho

Mulher sentado no chão com cão golden retriever, a cuidar e dar comida ao cão dentro de casa.

À primeira vista, até pode parecer uma coisa ternurenta.

O que muitos tutores tomam por um traço engraçado pode, na realidade, ser um pedido silencioso de ajuda. Por detrás desse aparente esfregar inocente do focinho está muitas vezes uma doença dentária grave, que não só provoca dor como compromete a saúde de todo o organismo - incluindo o coração e os rins.

Quando o cão se esfrega continuamente no focinho

Com a chegada da primavera, os passeios tornam-se mais longos e a relva chama por ele - e o cão atira-se entusiasmado para a relva, esfrega o focinho de um lado para o outro ou mexe na boca com as patas dianteiras. Nessa altura, muitos tutores pegam no telemóvel, porque a imagem parece simplesmente adorável.

Os veterinários encaram a situação de forma bastante diferente. Esse “massajar a cara” não é, em muitos casos, uma brincadeira, mas antes a tentativa de aliviar uma irritação insuportável. Os cães não conseguem chegar com as patas ou com a língua ao ponto doloroso dentro da boca. Por isso, esfregam a região por fora - com insistência, repetidamente e, por vezes, quase com desespero.

O esfregar frequente do focinho não é, muitas vezes, uma manha, mas sim um sinal claro de dores intensas na cavidade oral.

Quem descarta este comportamento como um “ritual fofinho” corre o risco de não ver o momento em que as placas aparentemente inofensivas evoluem para uma doença séria. Quanto mais tempo a causa ficar por tratar, maior será o sofrimento do cão - geralmente em silêncio e sem ganir.

Parodontite no cão: a doença subestimada

Como a placa dentária destrói a boca passo a passo

Nos dentes do cão, tal como nos dentes humanos, acumulam-se primeiro depósitos moles. Com o tempo, essa camada fina transforma-se em tártaro duro. Nas superfícies ásperas instalam-se bactérias que atacam a gengiva. O resultado são inflamações, gengivas a recuar e dentes soltos.

Os veterinários chamam-lhe parodontite. Está entre as doenças mais frequentes nos cães. Estudos indicam que cerca de 80 por cento dos cães com mais de três anos sofrem desta condição, de uma forma ou de outra. As raças pequenas, com dentição apertada, são particularmente afetadas, mas os cães maiores também não estão livres do problema.

O mais perigoso é que, numa fase inicial, o processo decorre quase sem ser notado. O cão continua a comer, a brincar e a comportar-se “normalmente”. Muitos tutores só percebem que algo está errado demasiado tarde - muitas vezes quando o cão já sente dores evidentes e começa a esfregar o focinho de forma marcante.

Cinco sinais de alerta no dia a dia

O esfregar do focinho raramente é o único sintoma. Quem observa com atenção costuma identificar um conjunto de indícios. Os veterinários destacam sobretudo estes cinco sinais:

  • hálito persistentemente desagradável, muitas vezes com odor a podridão ou metálico
  • gengivas vermelhas ou a sangrar
  • dor ao mastigar, com a comida a ser deixada cair ou engolida sem mastigar
  • dentes em falta ou a abanar sem que tenha havido acidente
  • esfregar frequente do focinho com as patas ou no tapete

Se vários destes sinais estiverem presentes, ir à clínica deixa de ser uma opção e passa a ser uma necessidade. O hálito, em particular, é muitas vezes desvalorizado. Muitos tutores acham que a boca de um cão tem de cheirar forte. Isso só é verdade até certo ponto. Um ligeiro “cheiro a carne” é normal. Já um odor persistente, pútrido, adocicado ou metálico aponta para infeção.

Como as dores ao comer se manifestam

Quando as croquetes favoritas ficam na tigela

Um dos sinais mais evidentes no dia a dia é a alteração do comportamento alimentar. Um cão normalmente voraz pode, de repente, parar diante da tigela, hesitar ou afastar-se. Alguns animais escolhem as croquetes, mastigam só de um lado ou deixam os pedaços mais duros e lambem apenas o que é mole.

Outros engolem a comida depressa, sem mastigar - não por gula, mas por receio da dor ao morder. Se, numa situação destas, se levantarem cuidadosamente os lábios, é frequente ver gengivas muito avermelhadas, tártaro castanho ou até zonas com pus.

Se um cão come de forma hesitante, seletiva ou de repente em menor quantidade, muitas vezes há mais do que simples “mimimi” - a dor é um desencadeador frequente.

Na fase final, alguns dentes caem simplesmente. Há animais que perdem logo vários molares sem que o tutor chegue a reparar no momento. Nessa altura, a doença já está bastante avançada e deixou de prejudicar apenas a boca.

Efeitos em todo o organismo

As bactérias provenientes de uma cavidade oral cronicamente inflamada entram na corrente sanguínea e podem espalhar-se pelo corpo inteiro. A partir daí, podem sobrecarregar as válvulas cardíacas, os rins e o fígado. Os cães mais velhos ou com doenças pré-existentes são especialmente sensíveis.

Muitos veterinários referem que o estado geral e a alegria de viver de um cão melhoram de forma visível assim que a boca é tratada profissionalmente. Os animais tornam-se mais ativos, brincam mais e parecem mais jovens - simplesmente porque a dor constante em segundo plano desaparece.

O que o veterinário pode realmente fazer

Limpeza dentária profissional sob anestesia geral

Quando a parodontite já está instalada, nem mastigadores nem pós vendidos no comércio resolvem o problema. Nessa fase, o cão precisa de tratamento rigoroso na clínica. A medida standard é uma limpeza dentária profissional sob anestesia geral.

O processo, de forma resumida:

  • exame prévio: avaliação geral de saúde, análises ao sangue se necessário
  • anestesia: adaptada à idade, à raça e a doenças pré-existentes
  • remoção do tártaro acima e abaixo da linha da gengiva
  • alisamento e polimento das superfícies dentárias
  • extração de dentes muito soltos ou destruídos

Os custos variam conforme a região, situando-se muitas vezes numa faixa de cerca de 150 a 300 euros, consoante a complexidade e o número de dentes afetados. Para muitos tutores, este valor pesa. Ainda assim, os veterinários sublinham que, com isso, não se “salvam” apenas dentes - recupera-se qualidade de vida.

Quais são os riscos da anestesia - e como as clínicas os reduzem

Muitas pessoas hesitam por causa da anestesia geral, sobretudo quando o animal é mais velho. Os métodos modernos de anestesia tornaram-se bastante mais seguros, mas o risco nunca desaparece por completo. Por isso, a preparação é fundamental: exame pré-operatório cuidadoso, protocolo anestésico ajustado e monitorização apertada com equipamentos.

Quem tiver dúvidas deve perguntar de forma direta como a clínica procede, que medicamentos são utilizados e de que forma é feita a vigilância. Uma conversa aberta traz clareza e ajuda a reduzir a resistência a avançar com o tratamento.

Como os tutores podem prevenir eficazmente os problemas dentários

Escovar os dentes do cão: estranho, mas possível

A melhor proteção contra a parodontite começa antes de se formar tártaro. A limpeza dentária regular em casa pode prolongar bastante o intervalo até ao próximo tratamento profissional. O ideal é escovar diariamente com pasta dentífrica própria para cães e uma escova macia ou escova de dedo.

A adaptação deve ser feita por etapas:

  • primeiro, tocar com delicadeza nos lábios e no focinho, recompensando o cão
  • depois, passar suavemente o dedo pelos dentes
  • em seguida, introduzir a pasta dentífrica e deixá-lo lamber por instantes
  • por fim, fazer alguns segundos de movimentos reais de escovagem, aumentando gradualmente

Nem todos os cães aceitam de boa vontade a escovagem dos dentes. Nesses casos, snacks de higiene dentária, artigos mastigáveis específicos ou aditivos para a água podem ajudar - não substituem a escovagem, mas muitas vezes melhoram a situação.

Raças em que deve estar especialmente atento

Os cães pequenos, de focinho curto e dentição apertada, tendem fortemente a ter problemas dentários: Yorkshire Terrier, Maltês, Chihuahua, Caniche Toy, Bolonka e raças semelhantes. Neles, a inspeção da boca deve fazer parte da rotina.

Mas os cães maiores também não estão automaticamente protegidos. Os restos de comida ficam facilmente presos entre os molares, sobretudo quando a ração tem um formato pouco favorável. Quem reage cedo pode evitar muito sofrimento.

Um olhar rápido para a boca uma vez por semana e atenção redobrada durante as refeições evitam, muitas vezes, meses de dor.

Porque ignorar pode sair caro

Quem ignora durante muito tempo o esfregar do focinho, o mau hálito e as dificuldades ao comer acaba por pagar duas vezes: com mais despesas veterinárias e com menos qualidade de vida para o próprio animal. Uma limpeza dentária feita a tempo é muito mais barata do que uma reabilitação extensa com várias extrações.

Conselho prático: no boletim de vacinas, pode registar-se uma espécie de inspeção dentária de rotina. Em cada vacinação, basta pedir um check-up rápido da cavidade oral. Assim cria-se um histórico e as alterações são detetadas mais cedo.

Se, da próxima vez, voltar a ver o seu cão a esfregar o focinho com carinho, vale a pena parar um instante: será mesmo apenas um hábito engraçado - ou estará ali escondida uma dor? Um olhar atento e, se houver dúvidas, uma consulta podem poupar ao seu companheiro de quatro patas muitos sofrimentos suportados em silêncio.

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