Novas investigações mostram agora: muitos deles são mais tímidos do que assassinos implacáveis.
O medo de tubarões está profundamente enraizado - alimentado por filmes de terror, manchetes dramáticas e vídeos espetaculares de praias. No entanto, estudos recentes estão a abalar com força o cliché do predador marinho sem alma. Os investigadores sublinham que os tubarões têm personalidades individuais, que moldam fortemente o seu comportamento no oceano - do atirado ao medroso.
Como nasceu a imagem dos tubarões como assassinos
No imaginário público, os tubarões figuram entre os animais mais perigosos do planeta. Hollywood reforçou enormemente essa imagem: sucessos de bilheteira como “Tubarão” ou thrillers mais recentes com surfistas na mira de peixes predadores consolidaram a ideia de que os tubarões percorrem o mar em busca constante de carne humana.
Na verdade, existe até um termo técnico para o pânico perante tubarões: Sélacofobia. Quem sofre deste medo evita não só o mar aberto, mas muitas vezes também piscinas, praias ou imagens de tubarões, porque tem fortes reações físicas - palpitações, suores frios e dificuldade em respirar.
Os números frios mostram outra realidade: para os seres humanos, acidentes de viação, mosquitos ou até vacas representam um risco claramente maior do que os tubarões.
A maioria das cerca de 500 espécies de tubarões conhecidas não ataca sequer os humanos de forma deliberada. Muitos encontros resultam de confusão ou curiosidade - e não de caça intencional.
Investigadores testam a personalidade de jovens tubarões
O tema torna-se especialmente interessante quando os biólogos não medem apenas dentes e força de mordida, mas também traços de carácter. Já em 2016, uma equipa de investigação australiana estudou jovens tubarões-Port-Jackson para descobrir se neles se podia reconhecer algo semelhante a uma “personalidade”.
Para isso, os cientistas colocaram duas questões:
- De que forma se comporta um tubarão individual: mais inclinado ao risco ou mais cauteloso?
- Esse comportamento mantém-se estável em situações de stress ou altera-se de forma acentuada?
No estudo, 17 jovens tubarões foram colocados num tanque com um refúgio protegido. Após um breve período de adaptação, a porta do esconderijo foi aberta - e os investigadores cronometraram quanto tempo cada tubarão demorava até nadar completamente para fora. Os que saíam depressa eram considerados mais ousados; os que permaneciam mais tempo na zona de abrigo eram vistos como mais prudentes.
Teste de stress na água: quem mantém a calma e quem perde a compostura?
Na segunda fase, os investigadores quiseram perceber quão estáveis eram estes padrões de comportamento quando a adrenalina subia. Cada tubarão foi retirado da água por um curto período e mantido cerca de um minuto - uma situação claramente stressante para um animal marinho.
Logo depois, o tubarão regressava ao tanque. Os biólogos mediam então a distância percorrida dentro de água. Em seguida, comparavam esses valores com a atividade do mesmo animal no primeiro teste, quando não havia stress.
A questão central era: cada tubarão reage de forma totalmente imprevisível - ou revela-se um carácter reconhecível, que atravessa diferentes situações?
A análise mostrou que alguns tubarões permaneceram relativamente tranquilos apesar do stress, enquanto outros reagiram de forma muito mais agitada e percorreram distâncias significativamente maiores. As diferenças entre indivíduos ficaram claramente visíveis.
Gigantes corajosos, pequenos cautelosos
Um padrão chamou a atenção: os animais maiores mostraram-se, em geral, mais arrojados e aparentaram menos stress. Os tubarões mais pequenos comportaram-se de forma mais reservada e reagiram com maior nervosismo quando a situação mudava.
Isto não significa que os tubarões grandes sejam automaticamente mais perigosos para os humanos. Coragem também pode querer dizer que um animal se aproxima com mais facilidade de objetos novos ou de sons desconhecidos - e não necessariamente que ataca. Já os tubarões pequenos e receosos tendem muitas vezes a recuar em vez de confrontar.
| Tipo de tubarão | Comportamento típico | Possível consequência em encontros |
|---|---|---|
| Maior, confiante | Curioso, menos assustadiço | Tende a aproximar-se mais de pessoas ou barcos |
| Mais pequeno, cauteloso | Indeciso, evita zonas abertas | Mantém-se mais afastado, recua mais depressa |
Por isso, os investigadores usam deliberadamente o termo “personalidade”: indivíduos da mesma espécie reagem de forma consistentemente diferente - tal como acontece com cães, gatos ou, naturalmente, pessoas.
Porque é que a personalidade dos tubarões interessa a quem vai à praia
Estas descobertas não são apenas uma curiosidade académica. Ajudam a avaliar melhor os riscos nas praias. Se os especialistas souberem que espécies circulam numa determinada região e como estas costumam comportar-se, conseguem delimitar com mais precisão as zonas de perigo.
Para as áreas costeiras, isto pode significar:
- Espécies com forte tendência para se impor visitam menos frequentemente zonas rasas de banho.
- Espécies mais reservadas permanecem mais vezes em áreas profundas.
- Estímulos pouco habituais, como muitos barcos ou pranchas de surf, influenciam o comportamento de maneira diferente consoante o tipo de animal.
Quanto melhor os investigadores compreenderem as pequenas diferenças de comportamento, mais precisamente poderão ser planeadas medidas de proteção para as pessoas e para os tubarões.
Assim, por exemplo, o uso de drones ou câmaras subaquáticas em praias pode deixar de servir apenas para assinalar a simples presença de tubarões e passar, a longo prazo, a observar também padrões típicos de movimento e reações de espécies específicas.
O que significa “personalidade” nos animais
À primeira vista, a expressão parece muito humana, mas na biologia é hoje usada com frequência. Refere-se a padrões de comportamento estáveis, que se repetem no mesmo indivíduo, por exemplo:
- Com que rapidez um animal explora novas áreas
- Com que intensidade reage ao stress
- Quão perto permite a aproximação de outros animais ou objetos
- Quão ativo é em comparação com outros da mesma espécie
Estas características podem ser quantificadas através de testes e observações. Em aves, peixes, polvos e roedores, isso já está bem documentado. A investigação sobre tubarões está agora, pouco a pouco, a seguir o mesmo caminho.
O que os banhistas devem ter em conta
Quem pensa agora: “Se os tubarões têm personalidade, então tudo pode acontecer” - não é bem assim. A maioria dos acidentes resulta de algumas configurações típicas. Algumas regras simples reduzem bastante o risco:
- Não nadar ao anoitecer, quando muitos predadores andam à caça.
- Não usar joias brilhantes, que podem parecer peixes presa.
- Não nadar sozinho para longe da costa, sobretudo em pontos conhecidos como hotspots de tubarões.
- Levar a sério as indicações locais e os sinais de aviso.
Mesmo com uma personalidade individual, um tubarão continua a ser um animal selvagem com uma mordedura poderosa. Respeito e cautela fazem, portanto, parte da equação.
Porque é que esta nova visão dos tubarões beneficia toda a gente
Uma imagem mais diferenciada do “tubarão com carácter” traz várias vantagens. Por um lado, reduz a histeria emocional: quem percebe que os tubarões não atacam de forma absurda, mas reagem de maneira muito diferente consoante a espécie e o indivíduo, tende menos a exigir programas extremos de abate.
Por outro lado, o conhecimento sobre diferentes tipos de personalidade facilita a proteção de espécies ameaçadas. Muitos tubarões estão sob forte pressão devido à sobrepesca, à captura acidental e à perda de habitat. Dados mais precisos sobre o seu comportamento ajudam a planear áreas protegidas de forma sensata e a adaptar métodos de pesca, para que menos animais acabem nas redes.
Para crianças e jovens interessados em biologia marinha, este tipo de estudo oferece uma porta de entrada particularmente estimulante: os tubarões deixam de ser descritos apenas por tamanhos de mandíbulas e estatísticas de ataques, passando a ser vistos como seres complexos, com traços individuais próprios. Isso desperta curiosidade em vez de pânico - e é precisamente daí que muitas vezes nascem futuros investigadores do mar, veterinários de animais marinhos ou conservacionistas.
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